terça-feira, 26 de abril de 2011

Da urgência.


Desde quando já nem lembro mais, sinto uma urgência de coisas verdadeiras e de momentos em que o teatro gasto dos dias dê férias a si mesmo – e a nós, paz! E num ímpeto, extravaso todas as minhas forças de um só momento, sem medir; tantas vezes de maneiras tão tortas, de falas absolutamente vergonhosas e gestos grosseiros, que não consigo impedir... O resto do tempo vivo em auto-cárcere, entre mil conversas comigo mesmo, aprisionado nesse país estrangeiro, com personagens que então só eu poderia entender. Mas hoje acordei sentindo que finalmente, em frente ao mar, tenho certeza da verdade que eu sempre quis te contar...

Dessa ânsia a corroer meu estômago, a fazer tremer o chão do meu quarto, toda vez que abro os olhos e vejo – em milésimos de segundo – um turbilhão de todas as nossas memórias mais bonitas e mais confusas. Como um pedido da minha própria natureza – ou daquilo que restou dela - de extravasar todas essas coisas contidas guardadas de tantos tristes carnavais, de tantos mágicos melancólicos e distantes natais. De famílias unidas, de festas imaginárias onde todos estavam presentes, menos nós. De feriados e domingos enfumaçados onde todas as horas parecem definitivamente mortas. Finais de tarde alaranjados onde todos os pássaros cantavam soltos por aí – mesmo que somente na nossa ingênua imaginação. Saudade dos tempos em que nós ainda não tínhamos olhos para ver tudo. De noites na areia da praia buscando sinais num céu estranhamente estrelado: um presente, diga-se não de passagem, que poucos entendem com a força e a intensidade que só aqueles que abraçam o acaso podem sentir.

Ei, meu amor, você pode entender? Nós vimos o mundo se derrubando. É como se nada completasse sempre que eu sinto esse vazio. Vazio de tudo o que foi corrompido de uma forma tão perdedora e vulgar: foi assim que renunciamos em massa, ao próprio ato de sonhar! O que ainda me acalma? É que lá no fundo eu sei: há sempre um pouco mais de tudo isso... Me esperando. Nos esperando pra reviver todos esses momentos em que nos sentimos andando sobre trilhos de trem, de um trem – antigo conhecido - que nos leve praqueles lugares tão constantemente presentes em todas as dez mil imaginações vindas de quadros e pinturas do passado... “Mas e se tudo mesmo acabar? Os planos que eu fiz e as pessoas que eu amo... ficarão todos pra trás?” A incapacidade humana de lidar com a finitude livremente traduzida em pequenas canções e versos que não se perderam no tempo, pois hoje fazem parte do que somos – ou parte daquilo que um dia sonhamos ser, pois, definitivamente, há uma parte de tudo que eu fiz questão de esquecer.

E toda vez que essa urgência bate fundo, desconfio que estou próximo desse algo pelo qual tenho procurado por tanto tempo. Que me faça finalmente soltar os braços e acordar sem a tensão de olhar o horizonte pela janela com receio de voltar meus olhos sobre as ruas; de ter força pra não desabar a qualquer sinal do ruído de cascos batendo no asfalto sem perder a coragem de seguir avançando, em silêncio. Só agora somos nós o bastante para saber que esse algo está nos simples sorrisos e no perfume da terra onde moram as árvores que ainda não tombaram. Que no sol de cada dia se esconde um precioso segredo onde não há nada de sobrenatural, apenas acaso - um intenso acaso - e que não nos resta absolutamente nenhuma escolha, a não ser viver como se estivéssemos preparados para receber o que ele tem a nos oferecer. Num mundo onde tudo foi feito pra acabar, há algo mais, muito mais pelo que – e por quem - se pode lutar, além dos próprios fantasmas.

Tão óbvia quanto à própria vida, nossa loucura nos fez mais despertos pra grandeza das pequenas coisas – não é sempre, mas às vezes eu enxergo assim.

5 comentários:

Daniel disse...

Enxerga bem...

Maria Eugênia disse...

"A incapacidade humana de lidar com a finitude livremente traduzida em pequenas canções e versos que não se perderam no tempo, pois hoje fazem parte do que somos – ou parte daquilo que um dia sonhamos ser, pois, definitivamente, há uma parte de tudo que eu fiz questão de esquecer."

Fato.
Que lindo Márcia. :~

Dai Die disse...

Esse blog não podería ter começado melhor!
Eu só tenho elogios para oferecer, e fico extremamente comovida por ver que minha pupila está bem encaminhada (muito bem, por sinal!).

Eu não traduziria melhor tal sentimento:

"Saudade dos tempos em que nós ainda não tínhamos olhos para ver tudo."

:*

Rita disse...

pode não ter a ver... o que não importa. muito (pq tem a ver com sensações e não com interpretações). mas me lembrou um texto da clarice.

"De fato, nos últimos tempos, tudo não passava nada bem. Ora sentia uma inquietação sem nome, ora uma calma exagerada e repentina. Tinha freqüentemente vontade de chorar, e o que em geral se reduzia à vontade apenas, como se a crise se completasse no desejo. Uns dias, cheia de tédio, enervada e triste. Outros, lânguida como uma gata, embriagando-se com os menores acontecimentos. Uma folha caindo, um grito de criança, e pensava: mais um momento e não suportarei tanta felicidade. E realmente não a suportava, embora não soubesse propriamente em que consistia a felicidade. Caía num choro abafado, aliviando-se, com a impressão confusa de que se entregava, a não sei quem e não sei de que forma."

p.s.: é a ruth. não sei que raios está acontecendo :P

Dennis Monteiro Goy disse...

Nostalgia; descompasso entre eu e mundo, entre eu e eu; a Noite Estrelada; hecatombe de cem sonhos; a dança de um Fauno agrilhoado; uma locomotiva descarrilada; uma rosa no meio fio; o sol da manhã.

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