Hoje institui o meu dia oficial da vergonha na cara. Tirei o pó de antigas gavetas, de estantes esquecidas, dos bons e velhos livros – sempre me deixando um grande pingo de culpa por lembrar que ainda não foram lidos - e da minha escrivaninha, há tanto tempo parada, me esperando. Limpei delicada e cuidadosamente mesmo aqueles cantinhos que sempre deixamos para depois, em virtude da dificuldade de acessá-los.
Eu, que nunca quis ir tão longe, apenas o suficiente para satisfazer os olhos, com paisagens novas e para mim ainda secretas, hoje fiz uma viagem do tipo que ainda não é possível – as minhas provas são tão palpáveis quanto o lugar visitado. Tudo começou num estado de emergência. Eu, inundada por todas as noites enluaradas que eu perdi, transbordando todos os raios de sol que aquela casa impedia de entrar, adentrei, descortinando o nosso grande casulo, para que o pulmão, já sufocado, pudesse sentir um pouco de ar. Me certifiquei da antiga certeza de que as janelas nunca se fecharam bem... as portas tampouco. As paredes, o assoalho e todas as marcas no teto, seguiam lenta mas intensamente o caminho da ruína. Visitei cada cômodo inundado dos meus e dos teus destroços e, embalada por uma melodia dançante - daquelas que nos animam a fazer uma grande faxina - , ouvi os nossos passos estremecendo o velho chão de madeira. Rasguei em mil pedacinhos velhos fantasmas, visões deturpadas de mundos criados por uma criança sem norte – e qual haveria de ter? (Num mundo onde adultos procuram na ilusão o lugar mais firme para se apoiar, como uma criança, ainda sem um poder de abstração – e de auto-enganação - tal, poderia sentir aquela casa como um verdadeiro lar?) E não é que as minhas lindas bonecas ainda estavam lá? O cesto de frutas que colhemos naquela tarde também...
Guardei o que ainda parecia ter vida, por mais duvidoso que parecesse. E, para celebrar o final da visita, a festiva despedida de um mundo longínquo, vi todos os seus desenhos perdidos, amarelados e carcomidos pelo tempo e, ainda que com um pouco de dó, pela beleza que deles emanava, ateei fogo um a um, calma e conscientemente, em homenagem a tudo o que você planejou. Demorei para entender que todos os copos quebrados e lençóis manchados não precisavam decorar, feito quadros pendurados para todos os lados, o meu novo lar.
Eu, que nunca esperei por grandes mudanças, tive certeza de que só depois de botar de molho cada uma das pequenas lembranças - e daí só tirá-las quando a cor tivesse voltado ao seu natural -, de quebrar antigos santos e deuses, orações e ídolos que só existiam na mente do desespero, de libertar todo o meu corpo das amarras colocadas por mim mesma, apenas depois disso, eu poderia voltar a brincar de sonhar.
Se eu fiz questão de encarnar um papel que não era meu, hoje oficialmente peço demissão do cargo, com a total consciência de que até hoje eu vim sendo uma atriz medíocre, que não interpretava nem a si, nem a ti, mas a todas as criações de uma mente infantil. Dando corpo e um pouco de alma a uma réplica barata do passado, empoeirada, insossa e ultrapassada, como os restos de um antigo e melancólico cinema dos anos 30. Festas lá aconteceram, muito se chorou e muito se riu. Mas acabou. Acabou.
Antes de terminar a faxina, apenas para me certificar, olhei com muito cuidado embaixo da cama, para ter certeza de que nenhum resquício ficou. Surpreendentemente, de tanto e de tudo aquilo, que há pouco tempo parecia cada vez mais se agigantar, nada restou. Planos, projetos, projeções de novos mundos, tudo aquilo que dizem pertencer ao humano mais humano de mim, agora decoram nossa nova casa.
E o sol quente e forte – mas ainda agradável - de um verão de 93 voltou a brilhar, aquecendo todos os cantos, antes escuros, ora dourados, como o verão que está para chegar.
1 comentários:
Ah... a melancolia. O passado... e seus fantasmas. Que nos perseguem por anos, sem que percebamos. Que nos visitam às noites para nos lembrar que por mais este motivo, não somos livres. Não somos nem de nossos monstros nem de nossos sonhos, que nem sempre queremos sonhar, ou simplesmente alimentar. Queremos não achar motivos para nós. Racionalizar demais a tudo ou calcular os riscos. Não ter pregos a prender pedacinhos de nós em quaisquer lugares que tenhamos permanecido, por prazer ou desespero.
Querems, sim, a liberdade da nossa alma, completamente impura, inevitavelmente, contaminada pelos danos da vida.
Postar um comentário