Existe um lugar onde o passo não é apertado. Um lugar onde o vento embala as árvores e o nosso ano não vem programado. Nesse lugar, a filosofia não é feita para a teoria, e a poesia não é relegada à estantes empoeiradas (ainda que seja gostoso constatar a passagem do tempo materializada).
Nesse lugar, a mortalha que tenta se passar por Filosofia tem para si um reduto próprio aos seus fins: um quartinho pouco iluminado, onde todas as verdadeiras lógicas e argumentos inúteis fazem-se companhia, aguardando pelo tal dia tão esperado (talvez algum túmulo condecorado).
Enquanto a poesia dança, embalada num ritmo entusiasmadamente irracional, eu penso no que seria desses dias cinzas, se não fossem os lapsos de honestidade humana (por vezes de uma beleza quase celestial): os blá-blá-blás de todo dia são como pétalas caindo no jardim... poderia ser diferente sendo para nós tão natural?
Num lugar assim, dentro de todas as geladeiras há cubos de gelo individuais em quadrados multicoloridos, e nos armários as xícaras de chá têm a cara do chalé de inverno de alguma avó. Quando chove há sempre um abrigo, logo ao seu lado. As ventanias só servem para levantar a poeira de lugares esquecidos, apagados. As festas são sempre na casa de amigos e os assuntos só esgotam quando o silêncio já é esperado.
A rima deixa de ser assim tão necessária. O acaso é confortável e morno, brando como o sol do outono. As ruas não quebram, não inundam. E os lares são feitos para durar para sempre.
2 comentários:
Existe sim. Que lugar fantástico! Guardo recordações apaixonadas da última vez em que estive lá...
Belo escrito, querida Márcia!
Espero ainda haver espaço para lugares assim, seja em nossos corações, ou numa realidade qualquer, mas que possamos reconhecê-los sempre! Como momentos especiais ou como esperança, um suspiro, uma lembrança...
Beijo enorme.
Verônica.
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